Contrato de alma: por que certas pessoas sempre te tiram do sério (e como rasgar esse acordo)

O celular vibra. É aquela pessoa de novo. Você ainda nem abriu a mensagem e o estômago já apertou, o maxilar travou e a resposta atravessada já está pronta na cabeça.

Por que justo ela tem esse poder sobre você? A escritora e hipnoterapeuta Dolores Cannon tinha uma explicação curiosa: talvez vocês tenham feito um contrato de alma. E, segundo ela, esse contrato pode ser rasgado.

Resposta rápida: Segundo Dolores Cannon, fazemos contratos com as pessoas que vão cruzar o nosso caminho, e guardar mágoa cria um carma que nos faz voltar e repetir a mesma história com elas. A saída que ela ensina é perdoar mentalmente: imaginar a pessoa, rasgar o contrato e dizer “eu te perdoo, eu te libero, eu te deixo ir”.

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O que é um contrato de alma, segundo Dolores Cannon

No trecho de palestra que inspirou este artigo, Dolores Cannon vai direto ao ponto. Para ela, a coisa número um que você precisa fazer, se quiser ir para a Nova Terra, é deixar todo o carma ir embora.

Logo depois, ela traz a ideia para o dia a dia. Se a vida é um jogo, diz ela, muita gente gosta de te provocar, e essas pessoas sabem exatamente o que dizer e o que fazer para te tirar do sério.

A parte que muda o jeito de ver a situação vem em seguida. Dolores lembra que fazemos contratos quando chegamos aqui e que essas pessoas estão apenas fazendo o papel delas. Ou seja: quem mais te irrita pode estar cumprindo um contrato de alma que vocês dois assinaram.

Por que a mágoa te faz repetir a mesma história

Segundo Dolores, o carma te prende à velha Terra e faz você voltar e repetir. Quando você se apega a uma mágoa, cria um carma que te segura, e você precisa voltar de novo, e de novo, e de novo. Ela fecha com uma pergunta direta: você quer voltar e fazer tudo de novo com essas mesmas pessoas?

Para deixar isso concreto, aqui vão alguns exemplos nossos (não são falas dela) de situações em que muita gente reconhece esse padrão:

  • No trabalho: você sai de um emprego por causa de um chefe que te diminuía nas reuniões e, no emprego novo, encontra outro chefe igualzinho.
  • Na família: é só sentar à mesa no Natal para a sua irmã fazer aquele comentário sobre as suas escolhas. Todo ano, a mesma cena.
  • No relacionamento: o namoro acabou há dois anos, mas você ainda olha o perfil do ex e sente a raiva subir.
  • No dinheiro: aquele amigo pegou dinheiro emprestado e nunca devolveu. Hoje você evita até passar na rua dele.

E agora a pergunta é para você: quem foi a primeira pessoa que veio na sua cabeça enquanto lia essa lista?

Guarde esse nome. E é aqui que fica interessante: Dolores não manda você procurar essa pessoa para conversar.

Por que o perdão não precisa ser cara a cara

Dolores é bem realista. Ela diz que nem sempre dá para fazer isso cara a cara, perdoando as pessoas. Às vezes é difícil demais. Às vezes, a pessoa com quem você ainda está preso, e de quem sente raiva, já partiu.

Por isso o caminho dela é mental. Não importa se você teve uma infância difícil, pais que te machucaram ou um casamento ruim: deixe ir, porque isso não é mais importante. Se esse é o seu caso, vale ler também o que já escrevemos sobre como lidar com uma infância difícil e sobre quando terminar um relacionamento.

Um cuidado importante, e esse comentário é nosso: perdoar não é voltar a conviver com quem te faz mal, nem dizer que estava tudo bem. É parar de carregar a história. Se a ferida for muito funda, o apoio de um psicólogo pode tornar esse processo mais leve.

E se a ideia de perdoar “só na cabeça” parece simples demais para funcionar, a ciência tem algo a dizer sobre isso.

O que a ciência diz sobre perdoar na imaginação

Em 2001, a psicóloga Charlotte vanOyen Witvliet, da Hope College, publicou na revista Psychological Science um estudo com 71 participantes. Em um momento, eles revisitaram memórias dolorosas e alimentaram rancor. Em outro, cultivaram empatia e imaginaram estar perdoando quem os tinha magoado na vida real.

O resultado chama atenção. Os pensamentos de mágoa provocaram mais emoções negativas e aumentaram a tensão na testa, a frequência cardíaca e a pressão arterial. Os pensamentos de perdão trouxeram mais sensação de controle e respostas de estresse menores. Você pode ler o resumo do estudo no PubMed.

Repare no detalhe: tudo aconteceu na imaginação. Ninguém precisou encontrar a pessoa, exatamente como no exercício que Dolores propõe. A própria Witvliet faz questão de dizer que perdoar não é o mesmo que desculpar, minimizar, ignorar ou esquecer.

O psicólogo Fred Luskin, que dirige os Stanford Forgiveness Projects, vai na mesma linha. Para ele, boa parte do nosso sofrimento não vem do que aconteceu, e sim da história que continuamos contando a nós mesmos sobre isso.

Só para deixar claro: a ciência não fala de carma, Nova Terra ou contrato de alma. Isso é a visão espiritual de Dolores Cannon. O que os estudos mostram é o peso que a mágoa tem na mente e no corpo, e o alívio que vem quando a gente consegue soltá-la.

E existe um livro muito antigo que também fala de rasgar um documento de dívida.

O que a Bíblia diz sobre cancelar uma dívida

Na oração do Pai Nosso, Jesus ensina a pedir: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mateus 6:12, Almeida Revista e Corrigida).

E, na carta aos Colossenses, Paulo descreve o perdão de Deus com uma imagem muito parecida com a de um contrato rasgado: “havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz” (Colossenses 2:14, Almeida Revista e Corrigida). A “cédula” era o documento escrito de uma dívida.

Esta comparação é nossa. Dolores Cannon não cita a Bíblia neste vídeo, e as duas visões não dizem a mesma coisa. Na Bíblia, quem cancela a dívida é Deus, por graça, e não se fala em contratos feitos antes de nascer. Já Dolores fala de carma e de contratos de alma entre as pessoas.

Mas existe um ponto de encontro bonito: perdoar é desistir de cobrar. Pense naquela irmã do Natal. Perdoar não é achar que o comentário dela foi certo. É parar de levar a nota promissória para cada jantar de família, esperando o dia em que ela vai pagar.

Se você sente que vem carregando essa conta há anos, leia também por que guardar mágoa prende você.

Na prática, responda com o seu coração, se possível, escreva:

  • Existe alguém que sempre te tirou do sério e que você conseguiu soltar? Como foi?
  • Você já perdoou alguém só na imaginação ou por escrito, sem falar com a pessoa?
  • O que mudou na sua reação quando essa pessoa apareceu de novo?

Como rasgar um contrato de alma em 5 passos

Este é o passo a passo que Dolores Cannon ensina no vídeo, com as palavras dela traduzidas para o português:

  1. Imagine a pessoa na sua mente, esteja ela viva ou não.
  2. Lembre que ela estava fazendo o papel dela no contrato que vocês fizeram.
  3. Diga mentalmente: “A gente tentou, a gente realmente tentou, não está funcionando. Vamos rasgar o contrato.”
  4. Veja-se rasgando o contrato e jogando os pedaços fora.
  5. Diga para a pessoa: “Eu te perdoo. Eu te libero. Eu te deixo ir. Você segue o seu caminho com amor, eu sigo o meu. A gente não precisa mais estar ligado de jeito nenhum.”

Dolores avisa que não é fácil, que você precisa sentir isso de verdade e que vai funcionar. Quando você libera a pessoa, ela não consegue mais te tirar do sério. Pode até tentar, mas não vai funcionar, porque aquilo não é mais importante para você. O conselho final dela é perdoar essas pessoas e depois tentar não criar mais carma.

Exercício para fazer hoje

Esta é uma sugestão nossa, inspirada no passo a passo:

Separe cinco minutos em silêncio. Escreva num papel o nome da pessoa que veio na sua cabeça lá no começo. Leia em voz baixa as frases do passo 5, rasgue o papel em pedaços pequenos e jogue fora.

Depois, observe: na próxima vez que essa pessoa mandar mensagem, o estômago ainda aperta do mesmo jeito?

Ferramentas que ajudam a soltar

Perdoar raramente acontece de uma vez só. Algumas ferramentas podem ajudar:

  • Caderno de autoconhecimento: escrever o que você sente antes e depois do exercício ajuda a perceber a mudança.
  • Meditação guiada: apps e cursos de meditação para iniciantes ajudam a criar o momento de silêncio de que a visualização precisa.
  • Terapia online: quando a mágoa é antiga e pesada, conversar com um profissional dá sustentação ao processo.
  • Livros sobre vidas passadas e perdão: ampliam a visão sobre por que certas pessoas aparecem na nossa vida. Veja as indicações abaixo.

Quem foi Dolores Cannon

Dolores Cannon foi uma hipnoterapeuta e escritora norte-americana, conhecida por décadas de trabalho com regressão a vidas passadas e pela técnica de hipnose que criou, a QHHT.

Um dos seus livros mais conhecidos é “The Three Waves of Volunteers and the New Earth”, publicado em 2011 pela Ozark Mountain Publishing, em que ela desenvolve a ideia da Nova Terra. O vídeo deste artigo é um trecho de uma palestra dela.

Perguntas frequentes

O que é contrato de alma?

Na visão de Dolores Cannon, é um acordo que fazemos quando chegamos aqui com pessoas que vão cruzar o nosso caminho. Quem te provoca estaria apenas fazendo o papel dela nesse acordo.

Como saber se tenho um contrato de alma com alguém?

Dolores não dá um teste. A pista que ela deixa no vídeo são as pessoas que sabem exatamente o que dizer para te tirar do sério, e as histórias que se repetem com elas.

Preciso falar com a pessoa para rasgar o contrato?

Não. Segundo Dolores, muitas vezes é difícil demais fazer isso cara a cara, e por isso o perdão pode ser feito mentalmente.

Dá para perdoar alguém que já partiu?

Sim. No vídeo, ela diz que a visualização vale para a pessoa esteja ela viva ou não.

Perdoar é o mesmo que esquecer ou aceitar tudo?

Não. Pesquisadores como Charlotte Witvliet deixam claro que perdoar é diferente de desculpar ou esquecer. Você pode perdoar e manter distância.

O que é a Nova Terra para Dolores Cannon?

Nos livros dela, a Nova Terra aparece como uma nova realidade para onde a humanidade estaria se movendo. No vídeo, ela diz que o carma prende a pessoa à velha Terra, e que soltá-lo é o primeiro passo.

Para se aprofundar

Se este tema mexeu com você, dois livros conversam bem com a ideia de contrato de alma:

“Muitas Vidas, Muitos Mestres”, de Brian Weiss: o relato de um psiquiatra que começou a ouvir histórias de vidas passadas de uma paciente.

“The Three Waves of Volunteers and the New Earth”, de Dolores Cannon (em inglês): o livro em que ela aprofunda a ideia da Nova Terra.

Conclusão

Talvez a pessoa que mais te irrita não seja sua inimiga, e sim alguém fazendo o papel dela num contrato de alma. Rasgar esse contrato não muda o que ela fez. Muda o poder que ela tem sobre você.

Pense profundamente com o seu coração: você conseguiria fazer esse exercício com a primeira pessoa que veio na sua cabeça? E, se quiser continuar no tema, leia como perdoar alguém.

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Fontes

  • Witvliet, C. V. O.; Ludwig, T. E.; Vander Laan, K. L. (2001). Granting forgiveness or harboring grudges: implications for emotion, physiology, and health. Psychological Science, 12(2), 117–123. PubMed
  • Fred Luskin e os Stanford Forgiveness Projects: Sounds True
  • Bíblia: Almeida Revista e Corrigida (Mateus 6:12; Colossenses 2:14)
  • Vídeo: trecho de palestra de Dolores Cannon, repostado por @manifestation_law_ no Instagram