Infância difícil: o que o Bashar ensina sobre deixar o passado para trás

Você está numa reunião e alguém levanta a voz. Na hora, o corpo trava, o coração acelera e você volta a ter 8 anos, escondida no quarto enquanto os adultos brigavam na sala. Já adulta, com contas pagas e vida própria, uma parte de você ainda parece morar lá.

Se você teve uma infância difícil, sabe como ela vai junto para todo lugar: no trabalho, no relacionamento, no jeito de pedir (ou não pedir) ajuda. Foi sobre isso que o Bashar falou com uma jovem numa de suas transmissões. A resposta dele é uma das mais ousadas que você vai ler.

Resposta rápida: para o Bashar, quando você se redefine como uma nova pessoa, isso não é só uma metáfora: você literalmente se torna outra pessoa, e outra pessoa tem outro passado. As memórias da infância difícil pertencem a quem você era. Não se trata de ignorar nem de esconder o que aconteceu, e sim de reconhecer aquela infância como o degrau que trouxe você até quem você é hoje.

O que o Bashar disse sobre a infância difícil

Numa transmissão, o Bashar conversava com uma jovem sobre a infância dela. Ele começou dizendo que, quando você se redefine como uma pessoa nova, isso não é apenas uma ideia metafórica. Você literalmente é uma nova pessoa. E, do ponto de vista linear, cada pessoa diferente tem uma história diferente.

Ele pediu, então, que ela definisse a infância que pertence à pessoa que ela é agora, como jovem adulta. E resumiu:

“Você cria o passado a partir do presente, e não o contrário. O passado não define o presente, a não ser que você escolha criar essa ilusão.”

Depois veio a parte que mais choca:

“As supostas memórias da infância que você não prefere pertencem a outra mulher. Elas não pertencem a você. A infância é dela, não sua.”

Não é ignorar nem esconder

Aqui está o detalhe que muita gente deixa passar. O Bashar não manda fingir que nada aconteceu. Ele foi claro: não se trata de ignorar a infância nem de encobri-la. Trata-se de reconhecer essa infância como o degrau que você usou para definir quem preferia ser.

E é aí que ele aponta o paradoxo: a infância que “a outra” teve ajudou você a se tornar a pessoa que você é hoje, uma pessoa que tem uma infância diferente.

Você é mesmo outra pessoa?

Para o Bashar, sim, literalmente. Ele explica que a personalidade é feita de crenças, emoções, pensamentos e comportamentos. É uma máscara que a consciência usa para ter uma experiência física. Quando você muda qualquer uma dessas peças, muda a pessoa que você é.

A impressão de ser a mesma pessoa no espelho, ele chama de ilusão de continuidade. “Você só se parece com ela”, disse à jovem.

Exemplos do dia a dia para entender a ideia

A leitura a seguir é nossa, para trazer o ensinamento para a vida real. Não são falas do Bashar.

O diário dos 15 anos. Pense naquele caderno ou naquelas mensagens antigas que você escreveu na adolescência. Você lê e pensa: “quem escreveu isso?”. A letra é sua, mas a pessoa que tinha aqueles medos e aquelas certezas já não existe do mesmo jeito. O Bashar leva essa sensação até o fim.

A casa onde você cresceu. Imagine voltar a ela depois de vinte anos. O corredor parece menor, a porta que dava medo é só uma porta. A casa é a mesma; quem olha é que mudou. Com uma infância difícil acontece algo parecido: a lembrança continua lá, mas quem lembra pode escolher outro lugar para ela.

A reunião do começo. A pessoa que se define pela infância difícil trava quando alguém grita. Quem se define hoje como alguém seguro também sente o corpo reagir, mas pode pensar: “esse medo é da menina de 8 anos, não meu”. A lembrança não some. Só que a menina para de conduzir a reunião.

O navio de Teseu. Um velho enigma da filosofia grega pergunta: se todas as tábuas de um navio forem trocadas, uma por uma, ele continua sendo o mesmo navio? Pela lógica do Bashar, não. Cada crença, emoção, pensamento ou comportamento que você troca é uma tábua nova.

O que a ciência diz sobre memória e infância difícil

A ciência não estuda canalização. Mas, quando o assunto é memória, ela chega a conclusões que conversam muito bem com o Bashar.

A memória é “salva de novo” a cada lembrança. Em 2000, os neurocientistas Karim Nader, Glenn Schafe e Joseph LeDoux mostraram, num estudo com ratos publicado na revista Nature, que memórias de medo já consolidadas voltam a ficar instáveis quando são relembradas e precisam ser armazenadas outra vez. O processo ganhou o nome de reconsolidação. É como abrir um arquivo no computador: toda vez que você abre, existe a chance de editar antes de salvar.

Lembrar não é assistir a uma gravação. A psicóloga Elizabeth Loftus passou décadas mostrando que a memória funciona mais como uma reconstrução do que como um vídeo. No famoso estudo “perdido no shopping”, de 1995, cerca de um quarto dos participantes passou a “lembrar” de um episódio de infância que nunca aconteceu. Isso não quer dizer que sua infância difícil foi inventada. Quer dizer que o jeito como você guarda cada lembrança é vivo e muda com o tempo.

Dar um novo sentido muda a própria lembrança. Em 2021, pesquisadores ligados à Universidade Rutgers publicaram na Nature Communications quatro experimentos sobre isso. Quando as pessoas encontravam um sentido positivo em memórias negativas, essas memórias voltavam mais positivas nas lembranças seguintes, e o efeito ainda aparecia dois meses depois. O presente, literalmente, reescreveu o passado.

Crescer a partir da dor tem nome. Os psicólogos Richard Tedeschi e Lawrence Calhoun chamaram de crescimento pós-traumático as mudanças positivas que muitas pessoas relatam depois de fases muito difíceis: mais força pessoal, novas possibilidades, mais valor à vida. É a versão científica do “degrau” de que o Bashar fala.

Você muda mais do que imagina. Em 2013, um estudo com mais de 19 mil pessoas publicado na revista Science mostrou que, em todas as idades, achamos que mudamos muito no passado, mas que vamos mudar pouco daqui para a frente. Os autores chamaram isso de “ilusão do fim da história”. A sensação de “eu sou assim e pronto” é, ela mesma, uma ilusão.

5 passos para soltar a infância difícil, inspirados no Bashar

Os passos abaixo são a nossa aplicação prática da ideia. Os pontos de partida são do Bashar; o roteiro é nosso.

  1. Defina quem você é hoje. Escreva em três frases a pessoa que você escolhe ser agora. Exemplo: “Eu falo o que sinto. Eu confio em mim. Eu descanso sem culpa.”
  2. Defina a infância que combina com essa pessoa. O Bashar fala em definir a infância que pertence a quem você é agora. Pergunte: que história “explicaria” essa pessoa? Talvez uma infância em que você aprendeu cedo a ser forte, a perceber as pessoas, a se virar.
  3. Devolva as lembranças à “outra”. Quando uma memória dolorosa aparecer, diga por dentro: “isso aconteceu com quem eu era”. Não é negar o fato. É mudar o dono da lembrança.
  4. Reconheça o degrau. Liste duas coisas que você só tem hoje por causa do que viveu: empatia, independência, sensibilidade para notar quando alguém não está bem. Essa é a parte do “não ignorar”.
  5. Troque uma peça por dia. Se a personalidade é feita de crenças, emoções, pensamentos e comportamentos, mude uma peça pequena. Hoje, peça ajuda sem pedir desculpas antes. Amanhã, diga um “não” sem se justificar.

Muitas das frases que travam a gente nasceram lá atrás. Nosso artigo sobre crenças limitantes ajuda a identificar quais você ainda carrega.

Exercício para fazer hoje: a carta de apresentação

Pegue um caderno e escreva uma carta curta apresentando a pessoa que você é hoje para a criança que você foi. Comece com: “Oi, eu sou quem você ajudou a construir.” Conte o que você aprendeu com ela e o que vai fazer diferente a partir de agora. Leva uns 10 minutos e costuma mexer mais do que parece.

Gostou da ideia? Siga o @vejaabelezaaqui no Instagram para receber os próximos trechos do Bashar legendados em português.

Infância difícil nos relacionamentos, no trabalho e no dinheiro

Nos relacionamentos

Quem cresceu ouvindo brigas pode, sem perceber, escolher parceiros que repetem o mesmo clima. Ou fugir de qualquer conversa difícil. Perguntar “isso é meu ou da menina que eu fui?” ajuda a sair do automático. Quando o padrão pesa demais, a terapia de casal ou a terapia online podem mostrar o que sozinha fica difícil de ver.

No trabalho

Quem nunca foi elogiado em casa às vezes vive atrás da aprovação do chefe. Pela lógica do Bashar, essa fome pertence à outra pessoa. No artigo sobre como mudar sua personalidade, o Joe Dispenza chega a um caminho parecido por outra porta.

No dinheiro

Muita gente que teve uma infância difícil em casa apertada carrega a sensação de que “dinheiro nunca sobra”, mesmo ganhando bem. Rever essa crença com ferramentas concretas, como uma planilha de gastos, um curso de educação financeira ou uma conversa com um planejador financeiro, é um jeito bem prático de trocar uma peça.

Quando buscar apoio profissional

O ensinamento do Bashar é um convite para olhar o passado de outro jeito, não um substituto para o cuidado profissional. Se as lembranças da infância difícil atrapalham o sono, o trabalho ou as relações, conversar com um psicólogo, inclusive por terapia online, pode fazer muita diferença.

Quem é o Bashar

Bashar é um ser que se apresenta como vindo de outra civilização e é canalizado há mais de 40 anos pelo americano Darryl Anka. Suas mensagens falam de lei da atração, crenças e da ideia de que a realidade física funciona como um espelho. Você pode conhecer mais no site oficial do Bashar.

Perguntas frequentes sobre infância difícil

Dá para superar uma infância difícil?
Muitas pessoas relatam que sim. A psicologia chama de crescimento pós-traumático as mudanças positivas que surgem depois de fases duras. Na visão do Bashar, superar passa por se definir como a pessoa que você é hoje e reconhecer o passado como degrau.

Segundo o Bashar, dá para mudar o passado?
Ele diz que você cria o passado a partir do presente, e não o contrário. Os fatos não são apagados; o que muda é a relação que a pessoa de hoje tem com eles.

Soltar a infância é o mesmo que esquecer?
Não. O Bashar deixa claro que não se trata de ignorar nem de esconder o que aconteceu, e sim de reconhecer o que você viveu como o degrau que ajudou a formar quem você é.

As lembranças de infância podem mudar com o tempo?
Sim. Pesquisas sobre reconsolidação e sobre memória reconstrutiva mostram que, a cada vez que lembramos, a memória pode ser atualizada. Um estudo de 2021 mostrou que dar um sentido positivo a lembranças negativas muda a forma como elas voltam depois.

Esse ensinamento substitui a terapia?
Não. Ele pode ser um bom ponto de partida para olhar o passado de outro jeito, mas, se as lembranças pesam no dia a dia, o acompanhamento de um psicólogo é o caminho mais seguro.

Para se aprofundar

Se você quer entender como a infância difícil ainda aparece nas suas reações de adulto, um bom próximo passo é o livro Acolhendo sua Criança Interior, da psicóloga alemã Stefanie Stahl. Com exercícios simples, ela mostra como reconhecer os padrões que vieram lá de trás e construir novos.

Conclusão

Uma infância difícil faz parte da sua história, mas, para o Bashar, ela pertence a quem você era. A pessoa que está lendo este texto agora pode escolher outra relação com esse passado, sem ignorar nada e sem carregar o que não é mais dela.

Qual lembrança você vai devolver para “a outra” a partir de hoje? Conta nos comentários. E, se quiser continuar nesse caminho, leia Ressignificar: 5 passos para mudar o efeito do que acontece com você, segundo o Bashar.

Leia também

🌿 Siga @vejaabelezaaqui no Instagram