Ensinamentos de Jesus: o que quase ninguém entendeu sobre julgar

Você está na fila do mercado e a moça da frente ri alto no celular, sem pressa nenhuma, enquanto a fila cresce. Em dois segundos, sua cabeça já decidiu quem ela é: folgada, sem noção, “vida boa”.

A gente julga o tempo todo, quase sem perceber. E entre os ensinamentos de Jesus, esse talvez seja o mais repetido e o menos vivido.

Resposta rápida: Para a hipnoterapeuta Dolores Cannon, quem parece ter uma vida fácil pode estar “descansando” de uma vida muito dura, e por isso não dá para julgar ninguém. Ela diz que ficamos presos na roda do karma, repetindo os mesmos erros com as mesmas pessoas, e que um dos grandes ensinamentos de Jesus foi mostrar a saída: o amor.

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O que Dolores Cannon diz sobre os ensinamentos de Jesus

No vídeo, Dolores começa com algo que todo mundo já reparou: tem gente que parece deslizar pela vida. Nada de grave acontece, tudo flui, tudo é fácil.

A explicação dela vira esse pensamento do avesso. Segundo ela, essas pessoas podem estar vivendo uma “vida de descanso”. E você não sabe do que elas estão descansando. A vida anterior pode ter sido terrível. Ou talvez estejam descansando para algo que ainda vem pela frente.

A conclusão dela é direta: é por isso que você não pode julgar. E, quando entende isso, você começa a ver as coisas de um jeito um pouco diferente.

Mas a fala dela não para no julgamento. Ela explica o que acontece com quem não aprende essa lição.

Por que repetimos os mesmos erros

Dolores continua: muitos de nós demoramos tanto para aprender as lições que ficamos presos na roda do karma. Cometemos o mesmo erro de novo, e de novo, e de novo. Não tem como escapar: a lição volta até ser aprendida.

O detalhe mais curioso vem depois. Para ela, a gente continua voltando com as mesmas pessoas, só trocando os papéis. “Desta vez você é o marido, eu sou a esposa.” “Agora você é a mãe, eu sou o filho, quem sabe a gente resolve.” Já falamos dessa ideia de acordos entre almas no artigo sobre contrato de alma.

A saída que Jesus mostrou

É aqui que entra Jesus. Para Dolores, uma das poucas coisas que Jesus veio nos ensinar foi como sair dessa roda. A gente girava, girava, girava, e não subia.

O caminho, segundo ela, é sempre o amor. O amor é a coisa mais grandiosa que existe, e Deus, a fonte, é amor total. E, nas palavras dela, é só isso que eles sempre tentaram ensinar a todos.

Mas espera. Se a saída é o amor, o que o julgamento tem a ver com isso? Tudo.

O julgamento nosso de cada dia

Os exemplos abaixo são nossos, não da Dolores, mas ajudam a enxergar o que ela quer dizer.

No trabalho: o colega sai às 17h em ponto enquanto você fica até tarde. “Folgado.” Você não sabe que ele busca o filho na escola e ainda estuda à noite.

Na família: a irmã que “teve tudo de mão beijada”. Você vê o presente dela, não o que ela carregou em silêncio.

No dinheiro: o vizinho trocou de carro e você logo pensa “deve estar devendo até a alma”. Você não viu os anos de economia nem sabe o que vem depois.

No relacionamento: o casal que parece perfeito nas fotos. Ou o contrário: você julga o parceiro pelo mesmo defeito que te irrita em todo relacionamento que já teve. Muitas vezes, o julgamento nasce da necessidade de aprovação dos outros, que faz a gente medir todo mundo pela mesma régua.

Repare nesse último exemplo. Ele junta as duas partes da fala da Dolores. Quando a gente julga, para de aprender. E quando para de aprender, repete.

Agora me responde com sinceridade: quantas vezes hoje você já decidiu quem alguém é, sem saber nada da história dessa pessoa?

O julgamento mais duro é o que fazemos com a gente

Tem um julgamento que quase ninguém percebe: o que fazemos com nós mesmos. “Eu sou burra.” “Eu sempre estrago tudo.” “Eu nunca vou mudar.”

Quem vive se condenando por dentro costuma condenar os outros por fora, com a mesma voz. E aí a roda gira de novo: a mesma culpa, o mesmo erro, a mesma história.

Se isso parece só uma questão espiritual, a psicologia tem uma surpresa.

O que a ciência diz sobre julgar os outros

A psicologia social tem um nome para esse hábito: erro fundamental de atribuição. Ele descreve a tendência de quem observa dar pouco peso à situação e ao ambiente e peso demais à personalidade quando explica o comportamento de alguém. A formulação clássica está ligada ao psicólogo Lee Ross, que criou o termo nos anos 1970. wikipediapages

Um experimento clássico de Edward Jones e Victor Harris mostrou isso de forma curiosa. As pessoas liam discursos a favor ou contra um político e precisavam dizer o que o autor pensava de verdade. Mesmo sabendo que a posição de cada discurso tinha sido definida por sorteio, os participantes continuaram atribuindo aquelas opiniões a quem falou. fandom

Os psicólogos Daniel Gilbert e Patrick Malone reuniram as pesquisas sobre esse viés no artigo “The correspondence bias”, de 1995. Há debate entre cientistas sobre o tamanho desse efeito, mas a lição prática é clara: quase sempre vemos só uma cena do filme da vida do outro.

Vale separar as coisas: a ciência fala de como nosso cérebro julga. Vidas passadas e roda do karma são uma visão espiritual da Dolores, sem comprovação científica. As duas, cada uma do seu jeito, pedem a mesma pausa antes de condenar alguém.

E a Bíblia? Ela tem algo bem direto a dizer.

O que a Bíblia diz sobre julgar

Em Mateus 7:1-2, Jesus fala: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também.” (Almeida Revista e Atualizada)

Pense numa pessoa que vive medindo os outros com uma régua dura: o atraso do colega, o peso da amiga, a criação dos filhos da vizinha. Quase sempre, ela usa a mesma régua consigo e nunca se perdoa por nada. A medida volta.

Em 1 João 4:8 está escrito: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor.” Aqui a ponte com a fala da Dolores fica clara: para os dois, o amor está no centro de tudo, e o julgamento afasta a gente dele. Falamos mais disso no artigo sobre por que Deus não pune.

A comparação é nossa. Dolores não citou esses versículos, e há uma diferença importante: a tradição cristã não ensina reencarnação nem karma. A ideia de vidas passadas é da visão espiritual dela. O ponto de encontro com os ensinamentos de Jesus está no convite para trocar a condenação pelo amor.

E como fazer isso na vida real, numa terça-feira qualquer?

Na prática, responda com o seu coração…

  • Teve alguma vez em que você julgou alguém e depois descobriu a história por trás?
  • Existe um padrão que se repete na sua vida (mesma briga, mesmo tipo de pessoa)?
  • O que mudou quando você escolheu olhar com mais amor?

Como viver os ensinamentos de Jesus no dia a dia: 5 passos

  1. Perceba o julgamento no corpo. Aquele aperto no peito ou o revirar de olhos é o sinal. Só perceber já tira o piloto automático.
  2. Troque o rótulo por uma pergunta. Em vez de “ela é folgada”, pergunte: “O que eu não sei sobre a vida dela?”
  3. Olhe para o que se repete. Se a mesma situação volta com pessoas diferentes, pergunte qual lição ela está tentando te mostrar.
  4. Escolha a resposta do amor. Amar não é aceitar desrespeito nem concordar com tudo. É parar de condenar. O artigo sobre como perdoar alguém ajuda nesse passo.
  5. Comece por você. Quem se julga sem piedade julga os outros do mesmo jeito. Fale consigo como falaria com uma amiga.

Exercício para fazer hoje: a história escondida

Escolha uma pessoa que você julgou hoje. Num papel, escreva três histórias possíveis que poderiam explicar o comportamento dela. Não precisa acertar. Repare só em como o seu sentimento muda quando você imagina o resto do filme.

Depois, faça o mesmo com um julgamento que você tem sobre si. Qual história você ainda não se contou?

Ferramentas que ajudam a julgar menos

  • Caderno de autoconhecimento: anotar os julgamentos do dia mostra padrões que passam despercebidos.
  • App de meditação guiada: alguns minutos por dia ajudam a criar o espaço entre a reação e a resposta.
  • Terapia online: se as mesmas situações e relações se repetem e pesam, um profissional pode ajudar a entender o padrão.
  • Bons livros: veja as indicações em “Para se aprofundar”.

Quem foi Dolores Cannon

Dolores Cannon (1931–2014) foi uma hipnoterapeuta americana que criou uma técnica de hipnose regressiva chamada QHHT. Durante décadas, registrou relatos de sessões sobre vidas passadas e escreveu mais de 15 livros, como a série The Convoluted Universe. Suas ideias são uma visão espiritual, não científica.

Perguntas frequentes

O que Jesus ensinou sobre julgar?

Em Mateus 7:1-2, Jesus diz para não julgar, porque a medida que usamos com os outros será usada conosco.

O que é a roda do karma?

É a ideia, presente em várias tradições espirituais, de que repetimos situações e relações até aprender a lição. Dolores Cannon usa essa imagem para explicar por que cometemos os mesmos erros.

A Bíblia fala de karma?

Não. A tradição cristã não ensina karma nem reencarnação. A comparação com o versículo sobre “a medida” é uma reflexão nossa.

Por que julgamos tanto os outros?

A psicologia chama isso de erro fundamental de atribuição: explicamos os outros pelo caráter e esquecemos a situação que eles vivem.

Como parar de julgar as pessoas?

Perceba o julgamento, troque o rótulo por uma pergunta e lembre que você só conhece uma parte da história.

Como sair da roda do karma, segundo Dolores Cannon?

Para ela, a saída é o amor, um dos grandes ensinamentos de Jesus.

Para se aprofundar

Os Quatro Compromissos, de Don Miguel Ruiz, fala de não tirar conclusões precipitadas e de não levar tudo para o lado pessoal, dois antídotos contra o julgamento.

Conclusão

Talvez a moça da fila do mercado esteja descansando de algo que você nem imagina. E talvez a lição que vive voltando para você comece exatamente aí: na pausa antes de julgar.

Pense profundamente nisto: qual julgamento você quer soltar hoje? E, para continuar a reflexão, leia o que é Deus e por que tanta gente sente Deus como amor e não como juiz.

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Fontes

  • Gilbert, D. T. & Malone, P. S. (1995). The correspondence bias. Psychological Bulletin, 117(1), 21–38.
  • Fundamental attribution error (Lee Ross; experimento de Jones e Harris, 1967)
  • Bíblia Sagrada, tradução Almeida Revista e Atualizada (Mateus 7:1-2; 1 João 4:8)
  • Vídeo: trecho de palestra de Dolores Cannon, legendado por @vejaabelezaaqui